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25/08

PSICANÁLISE PARA TODOS E NINGUÉM

Fred STAPAZZOLI1

O título é ambíguo, por certo, e não sem propósito. Pois desde as primeiras letras, já que falo em psicanálise, a ambiguidade e a hesitação devem ocupar um certo relevo.

Não posso deixar, de minha parte e por minha responsabilidade, correndo o risco de toda a brevidade, mais uma vez, de tentar desenhar este campo sobre o qual todos nós transitamos. Todos nós: o analista, o candidato à análise... Ambos, nem aquém nem além, meros resultados de toda equação possível e operada pela linguagem. Já de saída: há algo mais diáfano que isso?

Diante deste campo, a relação entre sujeito – isto que mencionei agora, analista, candidato... –, verdade e linguagem – os primeiros meros efeitos desta última –, há como não hesitar? De fato, beira o (im)possível pular sobre a própria sombra – brincadeira não menos divertida entre as crianças, mas entre crianças. E se a vida a alguém é passível de ser objeto de jogo ou brinquedo, coisa que não raro se vê, respeitemos, pois, de longe, talvez, assistamos ao xeque-mate. O rei, soberano, um dia também cai.

De soberanos a súditos, diante da vida, nós, certo dia, caímos – caso a queda não tenha sido operada desde o mau encontro inevitável e inominável com a linguagem, isto que nos humanizou. Fantasticamente soberanos – e só poderia ser da ordem do fantástico, pois soberania é mito adstrito à Ciência Política e disciplinas afins – até súditos, de um a outro patamar há um entre, a vida. E como disse, antes de brincar ou jogar, pode ser que sejamos brincados ou jogados – para fora da vida, inclusive, e aqui o mito revela a sua verdade, o engano e a sua luz que clareia um caminho, uma vida toda ou, quem sabe, uma vida não-toda?

Eis então este sujeito submetido, efeito, que Freud ao seu tempo chamou de inconsciente. Não diria ele, Freud, nem mesmo Lacan, mas a psicanálise volta-se para isso; o sujeito – do inconsciente, claro –, esta so(m)bra da linguagem que em cada singularidade se inibe, claudica, repete-se em cada entrada na linguagem – mau reencontro incontornável –, evento por si só traumático, sem retorno nem saída. Aquela que fala – a linguagem – sabe! E não fechemos os olhos ao feminino, pois somente nesta ordem algo é parido, como na fala, na análise... Nem que seja apenas a advertência de que tu também claudicas como um coxo! E no passo trôpego, talvez uma verdade.

Há quem assim não creia e insista, soberanamente, a se desvencilhar deste trauma que todo humano, porque humano, foi submetido. Mas é para este universo que a psicanálise se volta, ora chamada de técnica, ora de teoria, de clínica, prática, método, arte... De minha parte, prefiro ficar em suspenso. Talvez uma prática de linguagem muitíssimo singular e com efeitos terapêuticos, sim, e para não dar a palavra final, já que também hesito, talvez eu a coloque no campo de uma (est)ética.

A quem tal prática de linguagem se dirige? A todos e ninguém, pois se dirige, quase que na suspensão da História, para uma história particularíssima. Se uma resposta é possível, ela pode surgir somente por quem passe os olhos por estas linhas.

 

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